quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Agri-doce

Hoje não me faças promessas. Fala, gosto de te ouvir falar. Só não me faças promessas. Deitados na relva, fala comigo de Roma, de política, do tempo. Apenas mantém as promessas guardadas. Não me fales de céu. Não me fales do azul do céu. Fala-me da relva. Gosto de relva. Gosto de estar aqui deitada contigo em cima da relva. Do céu… não gosto. Não me digas que sou parva. A luz azul é aquela de comprimento de onda mais curto, o que faz com que ressalte em todas as direcções. É apenas pos isso que vemos o céu azul. Apenas por isso. Não me digas que estou a ser parva. «Mas não deixa de ser azul», e o teu braço agarra o meu e aponta o ciano. «Vês?». Vejo e solto o meu braço. Gosto mais de relva. Tu ris-te e puxas-me para ti, encaixando-me na covinha protegida do teu braço em ângulo recto. Eu fico quieta, não me quero mexer muito que sou alérgica ao pólen. A pedra sob as minhas costas incomoda-me, mas sabe-me bem os teus braços em torno do meu pescoço. E o teu riso na minha orelha. Sabe-me bem. «Amanhã casamos?», rasga-se um sorriso no teu infinito. Sabes que me estás a provocar. Os meus olhos surpresos e mudos respondem-te. Sabes tão bem como eu, que não tenho resposta para ti. Não me peças sonhos do azul que eu não toco. «Estava a brincar», beliscas-me a bochecha e pões-me a língua de fora. Pois estavas. Tiras-me uma madeixa de cabelo da cara. Não me faças promessas. Tu sabes que não me deves fazer promessas. Promessas do amanhã que ainda vem longe, promessas do dia que pode nem ser dia. «Eu sei». Fechas os olhos. Vais dormir? «Vou». Estás cansado? «Não». Não me peças sonhos de azul que eu não toco. Dispões paralelamente o teu braço junto ao teu tronco. Fico parada. Gostava do ângulo recto do teu braço. Um avião desenha com risco branco no teu céu. Desculpa, mas fartei-me de sonhar o céu que um dia alguém criou por cima das nossas cabeças. Faz-se silêncio na tua respiração. Passa outro avião, outro risco, outro rasgo no teu céu que se parece fragmentar em pedaços cada vez mais pequenos. Fecho também os olhos. Gostava de te ouvir falar. Fala. Diz coisas. Diz-me coisas.



(As personagens são fictícias...completamente e inteiramente fictícias...)



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O que é mesmo a paciência...?!

Se cada dia cai (ou se cada dia cair....)

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
Há um poço
Onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
Do poço da sombra
E pescar luz caída
Com paciência.


Pablo Neruda
(mais um...)



Tenho vontade de dizer alguma coisa sobre este poema...desenvolver esta ideia...quase que materializá-la...mas o quase não passaria de isso...um quase...um apenas quase...por isso:
Modo: Sentir apenas.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Amor

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor da pele
Há amor tao longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante
Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão
Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado
Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue, bem quente
Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca, nunca tocado
Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tao próximo
Amor de incenso
Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada, mas nada
Te faz contente, me faz contente
Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido
Há amor eterno
Sem nunca, talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez
Há amor de certezas
Que nao trará dor
Amor que afinal
É amor,
Sem amor
O amor é tudo,
Tudo isto
E nada disto
Para tanta gente
acabar de maneira igual
E recomeçar
Um amor diferente
Sempre , para sempre
Para sempre .

(Sempre para sempre, Donna Maria)



E claro que fica a pergunta: qual é o teu tipo de Amor....?!



(Reminiscências do Dia dos Namorados...?! Dia dos Namorados?! Não deveria ser (também) quando um Homem quiser?)


Hoje seria um dia para falar de Amor.


domingo, 17 de fevereiro de 2008

On repeat


There are so many special people in the world...

Há fábricas de dias que virão

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

Pablo Neruda

sábado, 16 de fevereiro de 2008

No one can stop the river of your hands

It’s today: all of yesterday dropped away
among the fingers of the light and the sleeping eyes.
Tomorrow will come on its green footsteps;
no one can stop the river of the dawn.
No one can stop the river of your hands,
your eyes and their sleepiness, my dearest.
You are the trembling of time, which passes
between the vertical light and the darkening sky.

The sky folds its wings over you,
lifting you, carrying you to my arms
with its punctual, mysterious courtesy.
That is why I sing to the day and to the moon,
to the sea, to time, to all the planets,
to your daily voice, to your nocturnal skin.

Pablo Neruda

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Todos e mais alguns

[ ] Queres casar comigo ontem?
[ ] Vamos morar juntos para debaixo da ponte?
[ ] Se mudasse de clube davas-me um beijo?
[ ] Posso conhecer-te outra vez?
[ ] Queres dar a volta ao mundo a pé comigo?
[ ] Queres brincar aos pais e às mães?

[ ] Sim, aceito.

(in postal grátis da Nescafé Capuccino)


Happy S. Valentine Day´s =))

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada


Cecília Meireles
"My monster is human"

(
in DIFFID (?))

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

"Don't part with your illusions. When they are gone you may still exist, but you have ceased to live."

Mark Twain

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo

"Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra. Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo."


Padre António Vieira


(Painel de azulejos alusivo aos 400 anos do nascimento de Padre António Vieira, junto da rua e da casa onde nasceu, perto da Sé de Lisboa)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Hoje o dia seria bom para sorrir

Hoje o dia seria bom para sorrir. Para passear, e para ver sorrisos colados nas nucas das pessoas que passam por mim, e que não me dizem “bom dia”. Não porque o dia deveria ser mau (vejamos, hoje deveria ser um bom dia para sorrir!), mas porque os “bons dias” se esgotaram quando se fez noite. Eu cá gosto de “bons dias” durante a noite. Gosto de desejar “bons dias”, quando ainda estamos num dia, em que podemos dizer “bom dia”! E hoje deveria ser um dia para sorrir…para sorrir e dizer: bom dia! Para colar sorrisos nos passeios…para lustrá-los de sorrisos, e de lábios entreabertos, e dentes lavados e língua encolhida, esticada, ausente. Hoje não seria preciso língua para sorrir, para sorrir sem malícia, sem saliva, sem pressa…porque hoje não há sítio para onde ir. Hoje temos tempo. Hoje temos o tempo do tempo, deste dia que é dia. Que ainda, é dia. E neste hoje, as pessoas passam por mim e não me desejam “bom dia”. E eu passo por elas e elas passam por mim, e nada me dizem e eu nada digo, que sou tímida. E elas trazem a língua esticada, encolhida e os dentes lavados e os lábios entreabertos. Respiram. Têm pressa e arfam. Estão cansadas e pendentes. Os lábios estão entreabertos, que respiram melhor. Encolhidas, esticadas, cansadas. De olhos no chão ou nalgum ponto por cima da cabeça delas. Demasiado em cima que se lhes perde a vista, sem que a encontrem outra vez.
Hoje seria um espaço para sorrir. Mas o que é o espaço da rua, do passeio e da estrada, dos carros, dos pneus e das pessoas que passam com os olhos fixos no retrovisor. Medo. Medo de serem vistas pelo retrovisor. Olham apenas de relance e foge-lhes os olhos antes que se cruzem com os olhos de outro alguém. Hoje seria um bom dia para sorrir, para sorrir para esse outro alguém de olhos fugidios no retrovisor. Mas não, é melhor não, que se faz noite. E à noite, já não se vêm os olhos nos retrovisores, nos espelhos, nos olhos que fixam de volta a face, e nos acusam que este poderia ter sido um dia para sorrir. Um dia para sorrir. Um dia para sorrir que já não é dia. Hoje seria um dia para sorrir. Hoje seria um “bom dia” para sorrir. Mas no hoje, já não há sorriso. No hoje, já não há bom dia. No hoje, já não há mais hoje.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Have heart my dear, have heart

Recuperando 2

Deixa-me ouvir...

Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...

Deixa-me ouvir...Não fales alto!
Um momento...Depois o amor,
Se quiseres...Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,

Que inquieta e embala...

O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez...Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna em mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Vejo te, somos dois...

Fernando Pessoa

Recuperando

O sorriso vai e volta para não cansar (e sobretudo não automatizar) as bochechas!!

Que venham os sorrisos! Os sorrisos de boca e de olhos e de corpo! Sorriso enorme de tudo!


SMILE!!!! =))

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Je veux seulement soixante petites secondes pour une dernière minute

Quand j'aurai tout compris, tout vécu d'ici-bas
Quand je serai si vieille, que je ne voudrai plus de moi
Quand la peau de ma vie sera creusée de routes
Et de traces et de peines, et de rires et de doutes
Alors je demanderai juste encore une minute

Quand il n'y aura plus rien qui chavire et qui blesse
Et quand même les chagrins auront l'air d'une caresse
Quand je verrai ma mort juste au pied de mon lit
Que je la verrai sourire de ma si petite vie
Je lui dirai : "Ecoute ! Laisse-moi juste une minute..."

Juste encore minute, juste encore minute
Pour me faire une beauté ou pour une cigarette
Juste encore minute, juste encore minute
Pour un dernier frisson, ou pour un dernier geste
Juste encore minute, juste encore minute
Pour ranger les souvenirs avant le grand hiver
Juste encore une minute... sans motif et sans but.

Puisque ma vie n'est rien, alors je la veux toute.
Tout entière, tout à fait et dans toutes ses déroutes
Puisque ma vie n'est rien, alors j'en redemande
Je veux qu'on m'en rajoute
Soixante petites secondes pour ma dernière minute.

Tic tac tic tac tic tac


Carla Bruni

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

"É preciso estar sempre embriagado. (...) com quê? Com vinho , poesia ou virtude, a escolher."

Charles Baudelaire

Today is a dancing to be free day

No mundo dos adultos, diz-se metade e espera-se que percebam tudo
Quarto-crescenta-me...

Quarto-crescenta-me...

Quarto-crescenta-me.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

"Os olhos gritam o que os lábios temem em dizer"

Will Henry


"Crescer dói e crescer custa, ninguém cresce porque quer"... mas (in)felizmente tem de se crescer...


(dito por alguém (= Bruno Afonso - que não sei se será a fonte oficial =P)...aproveitado (por outro alguém = Ricardo), reaproveitado por mim =P)


A um poeta

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
 
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...
 
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!
 
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faz espada de combate!
 
                      Antero de Quental


P.S: porque hoje é dia de poemas =P
(como serão outros certamente... =P)
coloco aqui este porque tem a ver com
a "descrição" do blogue, e por ser

um dos meus preferidos (outros virão
com certeza...dêem-me tempo...dêem-me
tempo =P)...porque faço (e fazemos),
tantas vezes, dos sonhos, a nossa
espada...e porque, tantas vezes,
é isso que nos resta...os raios
de luz...a espada....os sonhos...



Medo

Tu tens um medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Cecília Meireles

domingo, 3 de fevereiro de 2008



"Seja a mudança que você espera ver no mundo" Gandhi

(in Prison Break 1º episodio, 1ª temporada =P)

Primeiro post

Aqui vai o primeiro...aquele que é sempre mais complicado de escrever. Preferia nem escrevê-lo, sinceramente. Mas tem de ser né? A página do blogue só alberga 7 posts (penso eu de que...) por isso tenho de escrever rapidamente 7 para que este saia daqui e fique apenas guardado nos arquivos. Primeiro post e não sei que hei-de escrever (estranho para alguém que deveria ter muito para dizer...senão não teria criado um blogue... =S)...Bem...post 1 já demasiado comprido. The end. =P