segunda-feira, 31 de março de 2008
Ainda sobre a Ronda Nocturna...
A peça é bastante extensa (é preciso ir preparado!)... Por um lado, compreendo a necessidade desta extensão, (já que é apresentada em ciclo, onde muitas vezes as conversas se repetem, o que salienta o desespero de cada personagem), mas talvez seja um pouco extensa demais (há uns diálogos no final um pouco confusos).
Não vou falar sobre o final...mas acho que também esperava um pouco mais... embora talvez não houvesse mais caminho nenhum para seguir. Todos ficam sozinhos. Como todos começam. Como todos continuam.
Gostei =)
(haveria mais para falar sobre a peça...mas não posso me extender muito...senão depois já não vale a pena ir vê-la =P)
sábado, 29 de março de 2008
quinta-feira, 27 de março de 2008
Dia mundial do teatro
Para comemorar?! A Ronda Nocturna no Maria Matos =)
A Ronda Nocturna, de Lars Norén
Considerado o herdeiro artístico de Ingmar Bergman, o autor sueco Lars Norén é normalmente comparado a Strinberg ou a O´Neill. O seu teatro, alimentado de obsessões, é violento, visceral e denso.
Em A Ronda Nocturna, dois irmãos e as suas esposas “atacam-se” ferozmente, desvendando sem pudor as suas frustrações, os seus desejos e os seus medos diante da urna que contém as cinzas da sua mãe.
Evocando com uma nitidez desconcertante o universo de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? e o mote proposto por Edward Albee - «o Inferno pode ser uma sala confortável e um casal insatisfeito» - em A Ronda Nocturna o público é remetido para a sala de estar de John e Charlotte onde assiste, com uma perturbante proximidade, a um intenso ritual de mortificação mútua.
http://www.teatromariamatos.egeac.pt/
Modo: teatral (e com pressa...lol)
terça-feira, 25 de março de 2008
Impressão Digital
Poema encontrado num livro de filosofia do meu 10º ano:
Impressão digital
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão, Poesias Completas
Porque este também faz parte da maneira como quero (e tento...) ver a vida... =)
sábado, 22 de março de 2008
A minha forma de vida
Cântico Negro
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.
José Régio
Dia mundial da poesia
Procuro-te
Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre – procuro-te.
Eugénio de Andrade
quarta-feira, 19 de março de 2008
=)
LINDO!
in História de um homem com dois olhos esquerdos
Miguel Castro Henriques
terça-feira, 18 de março de 2008
Chez Kantor
O grupo faz um trabalho (simplesmente) espectacular a nível corporal, facial...interpretativo portanto. Isto porque nos leva (quase que nos arrasta! - e que bem arrastados vamos nós!) para aquele mundo individual que em tanto se aproxima (ou afasta...ou afasta...) do mundo de cada um de nós.
A peça é referida como um espectáculo " onde o grotesco associa o trágico e o cómico, a memória, a velhice e a infância. Uma valsa dançada em coro, uma viagem dentro de casa, a alegria de ser o contrário. " E acho que melhor definição não poderia ser encontrada; porque é realmente um espectáculo que associa uma enorme dose de sentimentos (contraditórios por vezes...), em que (quase) tudo é transmitido ao espectador; mas onde, sobretudo (e talvez seja isso o melhor desta peça), é deixado espaço livre para uma auto-interpretação singular e exclusiva. E assim, cada pessoa que sai daquele armazém, vê coisas diferentes naquela mesma coisa que desfila à sua frente. Um desfile que é, na verdade, um autêntico desafio às sensações e as vivências de cada um de nós.
Qual foi a minha interpretação? O que vi eu? Uma triste exposição do que é a sociedade actual: a vontade de estar na ribalta, a busca dum amor artificial, a importância de nos encaixarmos nos padrões de beleza - subjugando-nos a esses padrões e acabando por cair num vórtex de mentiras, apenas porque é importante sermos aceites pelos nossos semelhantes (ou por aqueles que queremos que sejam nossos semelhantes...) -, o negócio da guerra - em que cada vez menos temos a noção dos seus verdadeiros objectivos (verdadeiros objectivos...?), de quem combate quem (se há realmente um combate entre este e o outro...)-, a banalidade publicitária que cada vez mais é atribuída à morte de alguém.
Outros viram a evolução do Homem, outros nada viram "pensava que ia ver uma peça de teatro, mas afinal...", outros nada perceberam "pensava que tinha percebido"...
Mas vale mesmo a pena ver, porque nada foi esquecido: o chazinho de tília, o cobertor, o bilhete de farrapo.
Parabéns aos actores, encenador e a todos que participaram na realização deste (grande) espectáculo.
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http://novonucleoteatro.blogspot.com/2008/01/chez-kantor.html
segunda-feira, 17 de março de 2008
Quem me leva (os meus fantasmas)?
Tenho fantasmas caiados de paredes brancas.
Tenho fantasmas sobrados de pratos no lava-loiça.
Tenho fantasmas concretos de pousada grátis no sofá.
Tenho fantasmas molhados de toalha enrolada à cabeça.
Tenho fantasmas desconcertados de ténis deixados no tapete.
Fantasmas.
Tenho fantasmas escondidos dentro de mim.
Fantasmas.
Fantasmas perdidos.
Fantasmas.
Entre mim e os outros, fantasmas não vistos.
Fantasmas meus.
Fantasmas de quem por aqui passou e deixou: fantasmas.
Fantasmas sumidos nos olhos dos outros.
Fantasmas que nascem no fundo dos meus.
Fantasmas que me coçam na pele e me arranham na roupa.
Entre mim e os outros, fantasmas não sentidos.
Entre mim e os outros,
fantasmas,
entre mim e os outros.
sábado, 15 de março de 2008
Hoje parei para ouvir cantigas no metro: grande Grupo Coral Metropolitano de Lisboa que canta ao pouco encanto das pessoas que passam! Eu parei para ouvir, porque hoje fui dona do tempo. Não tive problemas em perder comboios, porque me fez bem a cantoria. Consegui (e parece-me que ainda consigo) ouvir, naquelas cansadas vozes de idade, o fresco gorgolejar das borboletas de flor em flor, o vento preso no vale da serra, o sol serpenteando ao encalço dos regatos. Senti-me bem ali, encostada àquele pilar de mármore que se encosta também a mim, sem pressa. Ele já estava lá. Eu cheguei depois. Eles também já estavam lá. Elas passaram por nós os três, com os pés pendurados às costas (para andar melhor, nada como pendurar os sapatos às costas, e com eles os pés que não fazem falta...rastejemos! Rastejemos, que é preciso!). Tinham pressa, elas. Eu sorria. E batia palmas ao sinal do maestro do final da canção. Também gostei do maestro, gostei do gesto que fazia em cada final de canção, qual truque de magia. Sim, o gesto era semelhante: rodava a mão sobre ela própria e com ela capturava o ar (e o tempo?). Só não fazia era magia. Não fazia magia porque guardava segredos. Segredos que demoravam tempo para serem percebidos. Para serem entendidos. Para serem descobertos. As pessoas tinham pressa. Eu gostava das combinações das vozes masculinas e femininas e deixei-me ficar encostada àquele pilar. Deixámo-nos ficar os dois. Elas passaram. Nós sorrimos.
Hoje, quero ser de ouvidos moucos às vozes acutilantes que me extravasam o cérebro, fazendo escárnio das minhas ideias que lá se encontram postadas à janela.
Hoje, quero apenas ter espaço para a loucura de miríades de estrelas que se estendem sobre mim, nesta minha semi-esfera portátil de ar quente.
Hoje, quero desobedecer às leis comuns dos mortais e ser apenas essência pura.
Hoje, quero brotar indefinida do meu subconsciente e realizar-me no meio do nada do mundo.
Hoje nasço não definida.
terça-feira, 11 de março de 2008
sábado, 8 de março de 2008
quarta-feira, 5 de março de 2008
(Shiu)
Um dias destes deliciei-me a ouvir uma confissão de um aluno meu a propósito de uma sua profundíssima desilusão de amor. O Vasco, de 10 anos, contava que escrevera uma carta para a entregar à sua amada, ou seja, ele esperava que ela viesse a ser a sua amada. Preparou um plano arriscado e mirabolante para a entrega da carta, passando inclusivamente por uma pequena dramatização. Deitou a carta para o chão, pisou-a para lhe dar algum aspecto usado e fazer crer que outro alguém a teria escrito. A ideia achei-a genial, mas…falhou. Quando a amada do Vasco viu a dita carta, rasgou-a impiedosamente e nem um olá disse. O enredo é assustadoramente adulto, o fiasco aconteceu porque o seu melhor amigo sabendo do plano, antecipou-se a contar à rapariga e assim matar a possibilidade da seta do Cupido. Neste momento, eu estava em pulgas para poder animar o Vasco, dizer-lhe que isso não era nada, quando este, com uma ternura serena, me diz que tem um grande amor onde costuma ir passar férias.
– Silvestre, eu adoro-a – afirmou com uma expressão feliz. – E diz-me, Vasco, já lhe contaste? Ela sabe o que tu sentes? – Perguntei.
– Não, nunca vou contar… - afirmou decidido. – Porquê? – questionei.
– Porque seria a destruição de tudo – respondeu ele, com o habitual olhar expressivo e terno.
– Mas – insisti – não vais dizer mesmo?
– Não, porque assim não acaba e eu gostarei sempre dela."
Silvestre Fonseca
(in Conversas de Café)

Cai o silêncio e tudo é magia apenas.
domingo, 2 de março de 2008
"Bonito isso hein? Li na web..."
Não nos contaram que amor não é acionado nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo.
Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um", duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava.
Não nos contaram que isso tem nome: anulação.
Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto.
Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.
Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade.
Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.
Ah, nem contaram que ninguém vai contar.
Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz se apaixonar por alguém"
(Martha Medeiros, jornalista brasileira)
De mãos atrás nas costas, de cabeça levantada, de sorriso ao vento, eu quero aproveitar a oportunidade de ser FELIZ. Cada oportunidade.
Nada está definido.
Plié. Grand jeté.




