domingo, 10 de fevereiro de 2008

Recuperando 2

Deixa-me ouvir...

Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...

Deixa-me ouvir...Não fales alto!
Um momento...Depois o amor,
Se quiseres...Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,

Que inquieta e embala...

O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez...Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna em mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Vejo te, somos dois...

Fernando Pessoa

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